quarta-feira, 8 de junho de 2011

Poesia Matemática


POESIA MATEMÁTICA
Millôr Fernandes
Às folhas tantas
Do livro matemático
Um quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base.
Uma figura impar,
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela
Até que se encontraram
No infinito.
“Quem és tu?” indagou ele
Com ânsia radical.
“Eu sou a soma do quadrado dos catetos”,
“Mas pode me chamar de hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs –
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadro de velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão,
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais
Nos jardins da Quarta Dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas
euclidianas
E os exagetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.



E enfim, resolveram se casar
Constituir um lar
Uma perpendicular.
Convidaram os padrinhos
O poliedro e bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas
para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três
cones
Muitos engraçadinhos.
E foram felizes...
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu,
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um todo,
Uma Unidade, Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

Um comentário:

  1. Vocês sabiam que desta aparente "simples poesia", você pode dar aulas associando língua portuguesa, física, matemática, entre outras disciplinas?

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